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Crítica - Assassin´s Creed


Ah, os filmes baseados em games de sucesso... Já tivemos tantas tentativas fracassadas de adaptações deles, mas as produtoras continuam tentando... Indo de filmes como Super Mario Bros. a Street Fighter, vemos uma gigantesca mancha no gênero. É claro que há exceções, como no caso de Resident Evil, que acabou se tornando uma franquia de sucesso e terá mais um filme sendo lançado no fim deste mês, e até mesmo Tomb Raider, que teve seu tempo de fama, mas é pouco lembrado hoje em dia. Inegavelmente, este gênero continua crescendo, mesmo que aos trancos e barrancos, com pequenos acertos vez ou outra (Warcraft, o penúltimo a ser lançado e um bom filme afinal), mas será que a reputação dessa linha de filmes pode mudar?

Esse é um dos desafios de Assassin's Creed, que chegou na última semana no Brasil e que era aguardadíssimo pelos fãs dos jogos da franquia. Com elenco de peso, contando com nomes como Michael Fassbender e Jeremy Irons, o longa conta uma história inédita (que, por sinal, é o maior acerto dos produtores!), uma grande mudança em relação aos outros filmes deste gênero, mas isso foi o suficiente para torná-lo uma exceção à regra? Confiram agora na nossa crítica!

Como todo bom fã da franquia sabe, um dos pontos fortes dos jogos é a maneira com a qual a história é contada. Na pele de uma membro do Credo dos Assassinos, o jogador é transportado a uma época passada, onde deve reviver as memórias do personagem que controla. É exatamente o que vemos na maioria do filme, já que o personagem principal, Cal Lynch (Fassbender), é um descendente do assassino Aguilar, o que possibilita que o personagem viva as memórias de seu antepassado. Estas memórias o levam de volta à década de 1490, na Espanha, onde os Assassinos travam violentos combates contra os Templários, durante o período da Santa Inquisição. É justamente aí que está o ponto mais forte de todo o filme: as cenas de ação! Quem não acompanha os jogos da série percebe cenas muito bem feitas, mas para quem joga, a sensação é de estar assistindo ao desenrolar do próprio jogo! A coreografia é muito bem executada, e para dar um toque especial, a ambientação das lutas é muito bem feita (seja no passado ou no presente, mas falaremos disso depois), gerando sequências de tirar o fôlego.

Mas qual é mesmo o motivo dos embates entre os dois grupos? A posse da Maçã do Éden, a chave para a desobediência humana no princípio dos tempos, e também o artefato que pode acabar com toda forma de violência na Terra. Este é o pano de fundo do longa, e não se preocupem, não tem como esquecer disso, porque a personagem de Marion Cotillard, Sofia, faz questão de lembrar disso inúmeras vezes ao longo da trama. Está aí um dos principais erros do filme, ficar constantemente lembrando de seu próprio enredo, o que acaba com a liberdade do filme de seguir novos rumos. E é também uma pena ver o potencial da personagem ser desperdiçado para que sirva como uma espécie de tutorial ao longo do filme. Mas é na relação desta personagem com seu pai, Rikkin (Jeremy Irons), que se encontra outro ponto forte do filme. Ele se preocupa demais com o objetivo da missão da Abstergo, já ela se preocupa com as consequências da missão para Cal, mostrando mais cautela com o personagem. De fato, ambos os personagens são pouco desenvolvidos, assim como personagens a princípio sem importância, que aparecem de uma hora para outra no clímax do filme, e até mesmo se cria uma dúvida em relação a Sofia no fim da história, que se torna uma personagem confusa nos últimos minutos.

Por outro lado, os personagens interpretados por Fassbender são extremamente bem desenvolvidos, e o ator dá um show ao longo do filme. Sua atuação aqui é simplesmente impecável, e certamente trabalhosa, já que o ator tem literalmente dois personagens diferentes nas mãos, de culturas diferentes, épocas diferentes e até mesmo com idiomas diferentes! Ele consegue transmitir as emoções ao público com perfeição, e é certamente o que diferencia seus personagens dos demais. E outro ponto importante está na conexão entre ambos os personagens, o que, de fato, cria diversos pulos entre os períodos vividos no filme, e todos sabemos o quão tênues e confusas podem ser passagens de tempo (ou até mesmo de locais, de vez em quando) em filmes, mas Assassin's Creed faz isso com maestria, e como elo de ligação, lá está Fassbender. Além disso, passa-se um bom tempo no 'presente' do filme, e é graças a isso que podemos ver muitos novos elementos, até mesmo desconhecidos até então, e isso certamente é um diferencial aqui.

Quanto ao enredo em si, é uma boa história. É claro, é a velha história de dois grupos opostos em busca de um mesmo objetivo, mas aqui não temos claramente uma diferenciação entre o bem e o mal. O antagonista do filme é um dos poucos personagens que pode-se classificar como bom ou mau, e até mesmo aqueles que pareciam ter uma orientação acabam por trocar de lado, e enquanto muitos podem não gostar, isso dá novos ares ao filme, e é um dos pontos-chave da última parte do filme. E com diferenças tão suaves entre seus personagens, as localizações são simplesmente opostas. 1492 e 2016. Espanha e... Infelizmente, seria um grande spoiler dizer onde o filme tem um importante trecho, mas felizmente para nós, é a parte espanhola da história que merece mais atenção! A construção dos cenários é ótima, e passa fidelidade aos espectadores, e até mesmo a Animus, aparentemente simples, tem seus momentos de "glória", bela em toda a sua simplicidade. Pontos para a equipe de fotografia! É graças a eles e à turma dos efeitos especiais que temos uma das mais esperadas ações de Aguilar no filme, mas também não podemos contar qual é, mesmo com os fãs da franquia já tendo ideias.

Infelizmente, os mesmos efeitos especiais que engrandecem o filme, vêm em doses exageradas de vez em quando. Há momentos em que há tanta informação na tela que você sente vontade de sair da sala de cinema e simplesmente olhar para o nada antes de voltar. E estas saídas são patrocinadas por alguns diálogos lentos e desnecessários entre personagens, que felizmente não são muitos. Em um filme que requer tanta atenção aos detalhes e metáforas, isso é uma gravíssima falha, que esperamos que seja corrigida em um próximo filme, caso aconteça. Até porque o fim do filme nos deixa esta dúvida: o que acontece agora? Tem para onde a história seguir ou é isso e ponto final? O típico final aberto, que é mais do que justo aqui, em meio à tantas sutilezas e dúvidas que o enredo cria.

Por fim, se você for um fã dos games, habituado com os elementos e a mitologia por trás da história, vá até o cinema agora mesmo e veja o filme! Mas se não conhecer bem a história ou nunca nem tiver visto nada sobre o jogo, vá mais pela diversão de assistir a um bom filme. Nenhum dos grupos se arrependerá por isso!

Nota do avaliador:

Já assistiu? Então conta aí nos comentários sua opinião e veja se concorda conosco!

Animais Fantásticos e Onde Habitam – Crítica


Eu juro solenemente não fazer nada de bom.

Ao começar a redigir este texto, me encontrei – inicialmente – em um bloqueio criativo. Não tinha ideia alguma de como iniciá-lo, foi aí então que pensei:  “Por que não começar com as frases utilizadas para acessar ao Mapa do Maroto? ”. Não há maneira melhor de se começar um texto, vídeo, ou qualquer tipo conteúdo envolvendo o universo mágico de Harry Potter do que recitando tal frase. Se engana quem não atribui essa sacada genial ser um dos motivos de seu sucesso do canal do YouTube do Observatório Potter – canal excelente, por sinal.

Se você – fã de longa de longa data ou que tenha até mesmo descoberto tal universo recentemente – já se sente ao menos um pouco realizado ao ler essas simples palavras citadas na primeira linha do texto, Animais Fantásticos e Onde Habitam terá um gostinho diferente. Caso você tenha nascido entre os anos 90 e os anos 2000, é bem provável que se inclua nessa lista.

Lembro-me perfeitamente do dia em que fui presenteado com os livros de Harry Potter, por uma amiga da família. Recordo-me de começar a ler os livros pelo último, pois quando os ganhei, já havia lançado os filmes dos primeiros seis, e estava no mais ansioso aguardo pela primeira parte do que seria o fim da saga nos cinemas. Lembro-me de não conseguir dormir, de ansiedade, no dia anterior ao lançamento de Relíquias da Morte Parte II. Eis que o aguardado dia chega, e eu, um adolescente esperançoso e deslumbrado com o universo mágico, saio do cinema extremamente triste – não pelo o que acabara de ver, mas sim por saber que aquele seria o fim de uma das mais influentes franquias que passara por minha breve vida. Mas eu sabia que aquele final era o mais perfeito possível, e uma continuação seria absolutamente desnecessária. Harry Potter havia crescido comigo e com vários de meus melhores amigos. Eu presenciei o amadurecimento da saga, que iniciara com um tom absolutamente pueril, ingênuo, e acabara com aquele tom melancólico, sorumbático.

Eis que, em 2016, já um jovem adulto, que corre atrás de suas próprias coisas e tem uma visão muito menos colorida e mais, de certa forma, lúgubre do mundo, fui presenteado pela incrível J.K. Rowling com meu amado universo de volta às telonas. Não há como mensurar a importância de Animais Fantásticos e Onde Habitam para mim, pois se trata de uma franquia que moldou parte de minha personalidade, além de possibilitar horas de assuntos com meus amigos, o que é algo precioso para uma criança/adolescente tão tímida como eu era. A importância é tal como a de vários que nasceram nos anos 70/80 e cresceram indo ao cinema assistir aos fantásticos filmes da saga Star Wars – saga muito importante, também, em minha vida, mas não tive a oportunidade de pegá-la em seu auge dos anos 80.

Esta é a primeira contribuição da J.K. com o cinema. O grande triunfo da escritora em toda a sua carreira é em sua habilidade fantástica em construir universos e desenvolver personagens divertidos e até profundos. Para minha surpresa, ela conseguiu escrever um roteiro que não apenas dá como prioridade a criação de novos personagens, como também utiliza de vários elementos que clamam por uma continuidade no futuro – claro, intencionalmente. A narrativa que ela opta aqui se distancia bastante da utilizada em seu primeiro livro da saga Harry Potter (A Pedra Filosofal), pois ao invés de iniciar com a constituição das motivações e criação do possível plot, ela opta por deixá-lo se revelar conforme os novos personagens vão entrando no contexto, o que é uma decisão arriscada, pois necessita constantemente de exposições. Ao invés de iniciar introduzindo e comentando quem é nosso adorável protagonista, Newt Scamander, e explicar o que o jovem rapaz fará nos Estados Unidos, ela já inicia nos colocando no contexto que o filme passa na timeline do universo e deixa para fazer todas as apresentações necessárias conforme Newt vai conhecendo os outros protagonistas e elenco de apoio do filme.

Falando em contexto, eis outra escolha sábia: a retratação do que seria uma versão atualizada (para a época em que o filme se passa, 1926) das caças às bruxas nos Estados Unidos. Aqui, há uma versão bem hiperbólica do caso das bruxas de Salém, pois não se trata apenas de um episódio histórico de uma cidade de Massachusetts, o contexto é quase que nacional, a caça às bruxas é um assunto absolutamente sério em todo o território americano. E, claro, há várias referências históricas e diversos questionamentos éticos propostos pelo filme, como, por exemplo, debates ante à determinadas condutas contra a liberdade e mais conservadoras – algo que a J.K. sempre fez em suas obras – e às medidas radicais com pouco fundamento. O debate fica bem superficial neste filme se comparado aos anteriores, mas onde ele tem maior poder é quando discute intolerância, segregação, e, principalmente, na busca pela personalidade própria. Isso é facilmente perceptível ao mostrar o comportamento e a personalidade do personagem do Credence, que sofre nas mãos de uma mãe extremamente intolerante, deixando clara a necessidade da autora em militar contra a repreensão do diferente e seu apoio à busca por identidade própria. E o interessante é que é possível pegar todo tipo de retratação de marginalização do mundo real em seus personagens, como a polêmica que poderia gerar um casal entre um bruxo e um não-maj (como são conhecidos os Trouxas, em New York), o que já foi debatido de formas mais pesadas nos filmes e livros da saga principal, mas que ela não deixa de comentar, além de outras alegorias relacionadas ao fundamentalismo religioso que estão presentes, também, na personagem da Mary Lou (a mãe do Credence, já citada anteriormente no texto). Por mais que muitos entendam como besteira, não há como negar que a J.K. consegue criar esses personagens não apenas em sua forma, mas em sua ideia, em sua temática.

Talvez o único problema do roteiro esteja na trama principal. A história central do filme é bem simples, o que não é algo ruim, o problema é que é tão simples que praticamente todas as subtramas são mais interessantes, tanto que grande parte das questões discutidas pelo filme (citadas anteriormente) se encaixam não no plot, mas em suas ramificações. Essa falta de balanceamento fica clara no terceiro ato do filme, em que vários acontecimentos acarretam à uma determinada situação que é desde o início incitada por uma das subtramas (ah, spoilers, como eu queria poder utilizá-los). Junto à trama principal, há também certas resoluções mal explicadas que podem deixar boa parte do público desapontada – mas, que, claro, deve ter sido optado com uma visão mais ampla, para que seja desenvolvido nos próximos filmes.

A direção do filme é de David Yates, que dirigiu os quatro últimos longas da franquia original. Aqui ele utiliza do mesmo tom já visto em vários de seus filmes anteriores, como A Lenda de Tarzan e os últimas da saga Harry Potter. Ele é um diretor que segue ordens, que nunca tenta colocar uma marca diferenciada em seus filmes, além de suas palhetas acinzentadas, que, cá entre nós, não tem nada de original. Há uma tentativa de fazer um certo contraste entre este e os demais filmes de Harry Potter, a começar pela inconsistência do tom. Nos anteriores filmes, a mudança do tom acompanha o crescimento e o amadurecimento do público e dos personagens, o que aqui é completamente desvairado; ora é fúnebre, denso; ora é descontraído e irreverente. E, acredite, isso não é algo negativo no filme: funciona como uma tentativa de se destoar dos anteriores, para mostrar que esta é uma franquia nova. Talvez sua maior coragem no filme seja essa. Ele poderia muito bem tratar os filmes com uma linguagem universal, contudo, opta pelo desvio e consegue convencer. É bem provável que nas sequências o tom seja mais sombrio, mas pode ser um tiro no escuro (sim, foi um trocadilho com o “sombrio”). A tentativa de não criar um “esperanto” entre todos os filmes do universo mágico ajuda a evitar comparações até ilógicas – o que muitos gostam de fazer, e a internet potencializou. E se ele consegue criar um tom contrastante aos anteriores, seu maior problema aqui é na criação de algumas cenas. Além de utilizar de muitos planos estáticos, o que denuncia certa preguiça, ele teve certa dificuldade em resolver alguns cenários, os quais o CGI acaba virando um problema, e não bem utilizado, como durante boa parte do filme ele o faz. Em determinados pontos, há uma tentativa de criar planos um tanto quanto diferenciados, com um tom caótico na mise-en-scene, o qual o diretor deixa vários espaços “mortos” ou até com alguns objetos obstruindo o olhar. E, o que seria o mínimo para que este filme acontecesse, as criaturas são todas muito bem feitas, desde seu conceito até sua finalização. Nelas e nos feitiços os CGIs são excelentes, pecando apenas, como já dito anteriormente, quando é utilizado como cenário, pois é nítida a utilização do fundo verde e não é criada a imersão necessária para que o público consiga se sentir dentro do cenário, pois, primeiramente, suas cores destoam aos tons dos objetos não-computadorizados, e também não é criada sensação de profundidade de campo que um fundo em computação gráfica precisaria para convencer.

Aliada à direção há também uma ótima retratação de época, com figurinos e trilha sonora perfeitamente complementares ao trabalho do Yates. O primeiro, em especial, consegue passar um ar de elegância e, em alguns momentos, apesar de se passar em New York, um tom londrino aos personagens gerais – não apenas ao Newt, que é, originalmente, de Londres – e, graças a isso, sempre há uma sensação de familiaridade, mesmo o filme tentando ser tão original. E se os filmes estrelados pelo Daniel Radcliffe têm como marca a trilha sonora original extremamente colante e graciosa, embora simples e com momentos pontuais de explosões, Animais Fantásticos e Onde Habitam não fica atrás. James Newton Howard consegue compor com tons da alma de John Williams temas nostálgicos e com elementos próprios, vagando entre a fantasia, o terror – em alguns momentos –, a psicodelia e a descoberta, do prazer em desbravar.

Um dos triunfos do filme se deve à excelente composição de elenco. A começar pelo protagonista: Eddie Redmayne – o Newt Scamander –, que é um ator que muitos enchem a boca para falar mal, é o ponto máximo de atuação do filme. Ele consegue passar, apenas com seu olhar, todas as características de seu personagem. O impressionante de sua atuação é sempre em sua expressão de encantamento, de paixão pelo o que está a reagir. Talvez o ator tenha cabido tão perfeitamente para o personagem por sempre trabalhar em cima de caricaturas, o que, neste contexto, não é, de forma alguma, algo pejorativo. Este é, quiçá, o melhor trabalho do ator ganhador do Oscar de 2015. Além de Redmayne, todos os outros protagonistas são fantásticos, com destaque à belíssima Katherine Waterston como Tina Goldstein e ao cativante Dan Fogler como Jacob. A primeira é a personagem menos caricaturada do filme. Waterston representa a sobriedade presente no universo fantasioso, pois sua personagem está sempre contida, com uma postura admirável, dessemelhante ao personagem interpretado por Fogler, que é a representação não mágica dentro de universo completamente mentecapto. O mais engraçado disso é que ele basicamente entra tão de cabeça neste universo que por muitos momentos o filme faz com que o público esqueça sua incapacidade de conjurar feitiços. Tanto este personagem quanto o de Redmayne conseguem ser carismáticos diante suas caricaturadas atuações. Por fim, Alison Sudol nos entrega uma personagem absolutamente encantadora, a Queenie Goldstein. Toda a sua elegância e seus truques funcionam como elementos da trama, e não apenas como o que poderia ser, caso mal executado, uma hiperssexualização barata.

O elenco de apoio funciona de maneira pontual, dando os espaços necessários aos personagens levando sua proporção na trama em consideração, pecando apenas em não dar tanto espaço ao personagem do Ezra Miller, o Credence Barebone. É impressionante a capacidade do ator em roubar a cena, mesmo quando é apenas um secundário. Todas a nuances que o perturbado Credence transpõe são executadas de maneiras sutil, e, quando precisa, explosiva. Já a contribuição de Colin Farell é a mais conturbada, e não por culpa do ator. Como o roteiro busca uma estrutura narrativa um tanto quanto não habitual, há sempre uma certa dificuldade em desenvolver a trama e as motivações do antagonista do filme, o Percival Graves. A estrutura inusual optada esconde informações chaves relacionadas ao personagem e as suas necessidades faz com que o espectador tenha que ver até o ato final para entender o objetivo de todas as ações pelo personagem realizadas, o que, para a situação, acaba atribuindo um ar de vazio e de não-convicção do próprio personagem e do roteiro, embora Farell tenha feito um esforço admirável em sua atuação para sempre manter o tom irrefutável, extremamente persuasivo, com certa imponência e com uma soberba exalante.

Aos que enchem a boca para falar que esta é uma continuação (ou prequel) desnecessária, feita apenas para ganhar dinheiro, apresento três opções simples: a primeira – um pouco mais palpável – é tentar ter mente aberta e ver que o universo de Harry Potter sempre pediu por desenvolvimento além do literário, pois há uma vasta camada histórica que nem se quer é citada nos filmes anteriores (ou posteriores, levando em conta a linha do tempo dos filmes), sem contar que muitos dos que definem tal universo como algo juvenil, mero fetiche adolescente, mas que criticavam vários dos críticos nos anos 80 que alegavam o mesmo de Star Wars (procurem pela crítica da já extinta revista Manchete sobre o filme O Império Contra-Ataca). A segunda é um pouco menos racional e muito mais intolerante, que seria a sua total ignorância, para evitar com que você encha o saco dos fãs. Em suma, fingir que não existe. Já a terceira é um tanto quanto mais radical, e só é cabível a quem realmente se incomoda com o sucesso e com a alegria do público geral: tranque-se em um quarto e não saia pelos próximos – pelo menos – 10 anos, pois não importa o que você ache, a franquia vai continuar por um bom tempo em toda a mídia. Você não precisa gostar deste universo para respeitá-lo e reconhecer sua importância e influência no século XXI, pois conseguir despertar um sentimento de imersão e de total amor a magia em uma geração marcada pelo excesso de informação e, consequentemente, pela falta de foco, é no mínimo algo a ser respeitado. Simples.

Com uma atmosfera já conhecida, mas criando uma história com tom e narrativas originais, Animais Fantásticos e Onde Habitam consegue conquistar tanto o público de longa data quando atinge a novos alvos, pelo fato de não precisar ter acompanhado os filmes anteriores para entender o arco que o filme propõe. Mesmo com certos tropeços em sua estrutura narrativa, e uma direção pouco criativa, consegue desenvolver sua própria história e ainda sim atribuir elementos para futuros plots. Todo o carisma e o ótimo desenvolvimento dos personagens formam uma atração a parte do filme, além de criar expectativas para o que teremos pela frente. O universo de Harry Potter voltou para ficar. Transbordo felicidade.

Nota do Avaliador:

Malfeito feito!

Já assistiu Animais Fantásticos e Onde Habitam? Se sim, comente sua opinião!

Doutor Estranho – Crítica


Um filme do Doutor Estranho é um daqueles em que um estúdio já acerta só por ter coragem de fazer. Começando pela própria caracterização e por todo o universo do personagem, a Marvel – conhecida por fazer sempre o arroz com feijão e não ousar – teria um trabalho imenso em colocar um personagem tão fantasioso em seu universo tão marcado pelas ameaças espaciais, mitológicas e científicas, ou seja, de certa forma, mais palpitáveis. Inseri-lo no universo é como colocar LSD e heroína dentro da lancheira de uma criança.

Sem contar que toda a ideia e a representação histórica do personagem já é fantástica: Doutor Estranho surgiu nos quadrinhos pela primeira vez em 63, e sempre esteve em contraste aos outros personagens da Marvel por toda a sua narrativa e seus visuais extremamente psicodélicos, que conversam muito com o período de sua primeira aparição, com os movimentos psicodélicos da Inglaterra nos anos 60 – movimentos os quais levaram a LSD a tomar conta das noites londrinas – e, claro, aos Movimentos Hippies, que explodiram neste período em todo o mundo. E, claro, o filme deveria explorar bastante das psicodélicas viagens astrais, interdimensionais e todos os elementos do universo metafísico que estão no cerne de um Mago Supremo.

Portanto, o diretor Scott Derrickson – conhecido por vários trabalhos no gênero do Horror, como A Entidade, O Exorcismo de Emily Rose (talvez o seu melhor filme como diretor) e Livrai-nos do Mal – era encarregado de levar não apenas o peso de um planeta, mas de todo o multiverso nas costas – além de ser um dos roteiristas do filme. Mas, aqui, o diretor faz um trabalho quase impecável de direção, apresentando um visual de cenários absurdamente estonteantes e venustos, com um nível de detalhamento admirável e, como um bom filme do Doutor Estranho pede, com um caos visual que transcende a realidade, o qual leva os próprios personagens em cena aproveitarem da não normalidade dimensional, aproveitando de conceitos de um mundo onde as leis da gravidade não se aplicam – teorizado por Maurits C. Escher, em 1953, com sua obra “Relatividade” –, o que Nolan explorou muito bem em A Origem, de 2010, mas que Derrickson passa por cima e aumenta em várias escalas no filme do Mago Supremo, o que me lembrou, durante a sessão, o que Kubrick fez em O Iluminado (1980), pegando vários elementos do The Phantom Carriage (1921) e melhorando-os em sua própria obra. Todas as cenas de desdobramentos da realidade (como, novamente, em A Origem) são magistralmente orquestradas, especialmente no segundo ato, em que a ação é mais presente e muito frenética. Inclusive, é possível pegar vários elementos da filmografia do Christopher Nolan aqui, como, por exemplo, em cenas em que o filme usa de elementos de Amnésia e até de Batman Begins. E, claro, é quase impossível fazer um filme com uma temática tão pirada, que utiliza de tantos recursos cinematográficos ousados, tantos jogos de cores – fantásticos, por sinal –, sem ter elementos de um dos maiores gênios do cinema, Alfred Hitchcock. É claro, a vertigem é algo que o personagem utiliza a seu favor, e mesmo essa sensação sendo de méritos apenas da biologia humana, nos filmes, um dos pais da criação de cenas que causam esse tipo de sensação é o grande Hitchcock. Em Um Corpo Que Cai (de Alfred Hitchcock), foi criado o conceito de um efeito de enquadramento aliado à movimentação de câmeras chamado Vertigo Effect, que aqui Derrickson poderia ter usado muito a seu favor, mas, por algum motivo, não há cena alguma com este efeito. Quando comparações como essas são feitas, é possível concluir que o diretor fez um trabalho no mínimo admirável em seu filme. Contudo, é possível atribuir certa dificuldade por parte de Scott Derrickson na execução de algumas cenas de ação mais simples, pois o diretor opta pelos cortes rápidos durante as sequências de ação, o que quebra um pouco da imersão que o filme – especialmente este – deveria trazer. Nada, de fato, comprometedor.

Além dos já citados elementos de Batman Begins, A Origem e Amnésia, o filme tem uma estrutura narrativa muito similar à Homem de Ferro. O roteiro, escrito pelo já citado Scott Derrickson, Jon Spaihts e C. Robert Cargill traz bons elementos, mas é frágil em vários aspectos. A começar pelo excesso de exposição – com diálogos que existem para apenas mostrar ao público o que e quem é determinado personagem, por exemplo – e de explicações pífias, sendo até, por muitas vezes, redundante. Mas estes são problemas releváveis, considerando que o filme tem como objetivo contar a origem do personagem, o que pede muito por esse tipo de exposição. Se a direção e o roteiro conseguem fazer o filme ter um ótimo peso dramático – sem ser exagerado, nem contido –, há certa contradição, pois o filme apresenta várias (várias mesmo) piadas extremamente forçadas e, assim como em Vingadores: A Era de Ultron, fora de hora. O filme tenta compensar seu peso dramático com piadinhas típicas de comédias pastelão – e não me refiro das boas. Talvez esse seja o principal problema que o filme apresenta, que evidencia, mais uma vez, que a Marvel entende seu público como pessoas deixam alguns problemas do filme de lado com a desculpa de que o filme não se leva a sério por ter tiradinhas que parecem sair de alguma página muito ruim de meme no Facebook. Tirando estes elementos que a Marvel cola insistentemente em seus filmes, Doutor Estranho consegue ser um filme com bastante marca do diretor, o que sempre é bom, principalmente levando em conta que o público já está se cansando da fórmula de sucesso do estúdio. O roteiro consegue abordar vários elementos importantes do universo mistico, como o Olho de Agamotto, algumas dimensões específicas, além de dar um gancho maravilhoso para o futuro.

Um outro grande destaque é a atuação de Benedict Cumberbach. Além de conseguir transmitir perfeitamente os trejeitos de Stephen Strange, o ator também consegue construir em sua atuação todo o peso e o drama que seu personagem passa durante o filme, fazendo com que sempre haja, durante o filme, discussões sobre o tempo, sobre a sensação de impotência e como o homem pode se perder em sua jornada por poder. É claro, não chega a ser um estudo de personagem em busca da perfeição – e, consequentemente, poder – como feito em filmes como Cisne Negro, Whiplash e afins; Ou tão existenciais e reflexivos quanto à mentalidade humana como Taxi Driver ou O Espelho (de Tarkovsky), por exemplo – e nem tem a intenção de ser. Ele não tenta levar os filmes de super heróis à outro patamar, o que, por um lado, é bom por não tentar ser maior do que realmente é, e ruim por reforçar aos mais conservadores cinéfilos que esse tipo de filme não é mais que um blockbuster. Não existe problema algum em um filme querer ser simples, mas se há um personagem que poderia colocar várias dessas discussões em boa parte de sua narrativa em seu próprio filme (da Marvel), é o Doutor Estranho. Não entenda mal, jamais disse que o filme deveria ter o mesmo alto nível aos citados neste parágrafo, ambos foram utilizados apenas como parâmetro.

Todo elenco de apoio também tem boa presença, com destaque para a Tilda Swinton, nos entregando uma Anciã convincente, passando um ar de experiência e, principalmente, sabedoria. Tanto a personagem Christine Palmer, vivida por Rachel McAdams, quanto o Mordo, vivido por Chiwetel Ejiofor, são pouco explorados e, especialmente a primeira, estão apenas para reagir aos atos do filme. Os personagens que fica no meio termo é o Wong, vivido por seu xará Benedict Wong, e o Kaecilius, interpretado por Mads Mikkelsen, que fazem bons personagens dentro do filme, mas que são diminuídos e fragilizados pelo roteiro. O primeiro, por exemplo, é utilizado, em sua maioria, como um mecanismo de alívio cômico, por viver isolado e não entender algumas convenções sociais. Já o segundo não consegue ganhar peso dramático ou de imponência, sendo, ainda, diminuído com a aparição de outro personagem (que obviamente não citarei para evitar spoilers).

Claro que como fã de quadrinhos eu tive minhas dúvidas durante a sessão. Com a introdução da Christine Palmer, seria possível um crossover dela com a Claire Temple, das séries da Netflix? Para uma adaptação do arco da Enfermeiras da Noite dentro de algum filme/série só faltaria a introdução da Linda Carter (A original Enfermeira Noturna e protagonista do arco nos quadrinhos), que já existem boatos (desde 2015) de que aparecerá nos próximos filmes da Marvel. Claro, nos quadrinhos a Claire não é uma das enfermeiras do arco específico, mas adaptações são necessárias, correto?

Se no meu texto de Guerra Civil eu reclamei que as trilha sonoras dos filmes da Marvel são reles e extremamente esquecíveis, Michael Giacchino veio para me calar: aqui a trilha sonora consegue acompanhar a grandiosidade das cenas, sendo gritante em momentos explosivos, e sensível aos momentos mais dramáticos que a trama pede. É realmente reconfortante saber que ele voltará a compor trilha para a Marvel em Homem Aranha: De Volta Ao Lar. Um gênio como ele não pode ser desperdiçado, como o que a DC fez com Hans Zimmer.

Doutor Estranho é um filme que toca em temas como a morte, existência, tempo e poder. Infelizmente o filme apenas tangencia estes assuntos, sem se aprofundar em absolutamente nada por estar preso nos vícios da Marvel. Com visuais absolutamente veneráveis, direção segura e inspirada, porém com um roteiro vago e inconstante, este é um dos melhores filmes da Marvel Studios, um dos melhores filmes baseados em histórias em quadrinho do ano, e, quiçá, o melhor do estúdio em 2016. Funciona tanto no subgênero de super-heróis como um filme a parte de magia, com uma grande e forte dose de LSD e todos os tipos de drogas químicas possíveis. Apesar de tudo, deve gerar certa discussão por parte de boa parte do público, pois aqui vemos – explicitamente – que o estúdio está acomodado em seu método e não deve mudar tão já. Por mais que a concorrência tenha falhado, um estúdio na posição que a Marvel/Disney se encontra, qualquer erro pode ser fatal, pois todo mercado vive de bons plot twists. O cinema não é exceção.

Dica: Veja na melhor sala de cinema que puder.

Nota do Avaliador:

Já assistiu Doutor Estranho? O que acharam?

Star Trek: Sem Fronteiras – Crítica


Não é segredo a ninguém que J.J. Abrams conseguiu algo, no mínimo, formidável com Star Trek. Com seu reboot, apresentou a franquia a uma nova geração, contextualizando vários elementos tanto da série original quanto dos filmes anteriores, sem perder a essência ou cair no saudosismo barato. O diretor conseguiu na franquia Star Trek algo que colaborou muito no sucesso de – por exemplo – Star Wars: O Despertar da Força: A originalidade aliada à reverência. Tanto no filme de 2009, quanto no de 2013 e no Despertar da Força, de 2015, o diretor conseguiu colocar a sua personalidade vinculada à um espírito de familiaridade.

Entretanto, em Star Trek: Sem Fronteiras, Abrams volta apenas como produtor – decorrente de outros projetos, que vocês sabem do que se trata – e, seu substituto, Justin Lin, diretor de vários filmes da franquia Velozes e Furiosos, dirige o novo longa de maneira conturbada. Aqui o diretor repete um erro crucial que cometeu nos Velozes e Furiosos: Além de ter problemas na construção de toda a mise-en-scene, ele abusa dos cortes rápidos durante as cenas de ação, o que tira o espectador da imersão que o filme deveria colocar, o que não seria um problema se o filme tivesse a ação tão contida quanto nos anteriores, mas, como já era esperado, ele colocou longas sequências de ação no filme – danificadas, porém energéticas. Há, também, erros básicos de filmagem, especialmente nos diálogos, pois o diretor utiliza muito, nestes momentos, de closes nos personagens – característica de séries de TV, mas estamos tratando de um longa exibido em cinemas, correto? Isso é um problema porque ele perde a oportunidade, com isso, de utilizar, por exemplo, do físico vantajoso de seu vilão Krall, vivido por Idris Elba, além de boicotar grande parte do belíssimo trabalho visual do filme – trabalho o qual ele acerta muito. Nos poucos planos abertos do filme, vemos o quão rico nos detalhes é cada cenário. Claro, por se tratar de um filme espacial, há várias sequências com CGI, que aqui se encontra impecável e utilizado a favor da história, com altíssima qualidade – o que é o mínimo para um filme de orçamento tão alto em 2016.

O grande triunfo do filme se dá pelo dinâmico roteiro de Simon Pegg (sim, o Montgomery Scott da Enterprise) e Doug Jung. Embora exageradamente literal e com alguns diálogos levados pelo cafonês – sendo expositivos demais quanto à índole de muitos personagens – há uma ideia genial para a forma como os personagens se relacionam entre si: os roteiristas optaram por dividir todo o elenco em duplas, o que, além de contribuir trabalhando os personagens quase que individualmente, remete muito a série clássica. Há uma sacada no ato final que utiliza de um elemento do segundo ato que é realmente genial e evidencia o quão coerente e coeso é o roteiro do filme. Além de tudo, este é o filme mais engraçado e, consequentemente, divertido da franquia – e não se engane, o filme não cai na galhofada barata por isso. Todavia, há um problema neste filme que já vimos no anterior. Em ambos a atmosfera episódica é incômoda, tanto aqui quanto no filme de 2013 existem pouquíssimos trabalhos de roteiro para que no futuro, nos próximos filmes, algo substancial aconteça. Se O Despertar da Força arquiteta toda a nova franquia Star Wars, criando possíveis plots para os próximos filmes e funcionando como história fechada, este apenas funciona no próprio arco, o que, claro, não deixa de ser um ótimo exercício de gênero. Mas, de fato, é inegável que apesar de quase não desenvolver nada para o futuro, o simples – porém ótimo – argumento do filme funciona impecavelmente.

E aqui temos a prova viva de que uma boa história – ou um bom argumento – não precisa ser algo complexo. Se bem construída e, principalmente, atuada e montada, qualquer história consegue se vender. E, como aliado ao roteiro, todas as atuações estão impecáveis aqui. Aparentemente, Chris Pine se encontrou no papel e conseguiu nos apresentar um Capitão Kirk a altura. Porém, a estrutura do roteiro põe dois personagens em evidência e são de longe os mais divertidos: Spock, interpretado por Zachary Quinto, e Leonard McCoy, interpretado por Karl Urban. Alguns personagens funcionam surpreendentemente, principalmente por apresentarem algumas características curiosas, como, por exemplo, a Jaylah, interpretada pela Sofia Boutella, que não entende algumas expressões metafóricas ou atos básicos do cotidiano humano – essa característica dela não é tão hiperbólica como no personagem do Drax, de Guardiões da Galáxia, por exemplo – o que em alguns momentos funciona como alívio cômico. Aqui o personagem de Simon Pegg tem um espaço maior em relação aos filmes anteriores, o que é natural, levando em conta que o ator é um dos roteiristas. Já quanto ao vilão não há nada a se apontar que agregue positivamente ao personagem. Sua motivação é fraca e seu arco cai no clichê de utilizar como motivação a busca pelo já batido no cinema atual “objeto misterioso”. O ótimo elenco consegue passar todas as emoções que o roteiro precisa, além de atuarem de maneira extremamente sensível quando se referem à personagens cujos atores já vieram a falecer. Algumas cenas são tão tocantes que é quase impossível não ficar emocionado.

Que Anton Yelchin descanse em paz.

A trilha sonora acompanha o ritmo energético do filme, sendo até mesmo utilizada quase como uma personagem em determinadas ocasiões. É gritante nos momentos mais tensos, é sensível nos momentos mais humanos, e, obviamente, complementa perfeitamente o que a imagem tenta passar.

Star Trek: Sem Fronteiras é um filme com uma atmosfera familiar, com uma energia imensurável, ótimas atuações, alguns deslizes em determinados diálogos, porém com uma alma belíssima e um dinamismo excepcional. E se o diretor peca nos cortes e em alguns enquadramentos, compensa com um trabalho fantástico com todo o elenco e no tom agradável que o filme apresenta. Infelizmente a franquia está em um tabu quanto ao tom episódico, o que de fato não influência o arco do filme, mas poderia entusiasmar mais para o futuro que a franquia tomará. Não é inovador, mas, poxa, como eu queria que todos os “exercícios do gênero” fossem bons e divertidos como este.

E vida longa e próspera a Star Trek nos cinemas!


Nota do Avaliador:

E você, já assistiu ao Star Trek: Sem Fronteiras? Se sim, o que achou do filme?

A Lenda de Tarzan – É só mais uma releitura? - Crítica


A Lenda de Tarzan é o típico filme que conta uma velha história de um jeito totalmente novo, trazendo novas tramas e dando um pouco mais de background para o personagem principal, chegando a surpreender nesse último quesito, o qual não pretendo me aprofundar neste texto, pois é um grande spoiler. Estrelado por Alexander Skarsgard (True Blood) e Margot Robbie (O Lobo de Wall Street, Golpe Duplo), o filme é uma releitura da história original do personagem da Disney (podendo ser vista até como uma sequência da história original).

Todo filme que tenta refazer o modo com que uma história é contada corre o risco de desagradar grande parte dos fãs mais fervorosos de qualquer personagem da cultura pop, mesmo esse sendo um não tão aclamado assim, mas que tem sua parcela de importância no universo das animações Disney e até jogos de vídeo-game.

Para quem vai assistir o filme esperando aquele clima alegre de musicais rolando a cada cinco minutos pode ser uma experiência um tanto quanto diferenciada, pois esse longa aborda a história do rei das selvas de um jeito mais adulto e violento, por vezes até sombrio. O clima do longa é, quase sempre, pesado, com fortes relacionamentos entre personagens, tendo até discussões filosóficas em alguns trechos.

Apesar do clima obscuro nos arcos de alguns personagens, temos momentos de descontração com interações divertidas entre os mesmos, principalmente entre Tarzan (Alexander Skarsgard) e seu mais novo amigo de aventura, George (Samuel L. Jackson). Mas esses momentos são raros, deixando espaços maiores para diálogos mais fortes sobre o passado dos personagens.

No ato inicial, a preocupação com a forma com que a história seria contada chegou até a aparecer, com algumas explicações desnecessárias (tentando explicar, por exemplo, como a vida na selva mudou, não só o comportamento mas, a estrutura óssea do Tarzan). Porém, logo o filme demonstra não se preocupar com detalhes desnecessários e parte para o que realmente interessa, a história de fato.

O filme traz sequências de ação ótimas, com combates corpo a corpo entre homem e animal de uma forma pesada e extremamente violenta, além das clássicas cenas em que Tarzan voa pela floresta inteira se balançando nos cipós. E quando unidas as duas coisas, fica ainda mais legal.

Um ponto que pode desagradar algumas pessoas (e agradar outras), é o exagero nas cenas de ação e correria no ato final do filme, sendo algumas até bem confusas de se acompanhar, com movimentação e posicionamento de câmeras diferentes.

O elenco consegue transmitir de maneira convincente todo o sentimento que cada um dos personagens carrega: a vontade de Tarzan de retornar a sua casa, a selva; o amor de sua esposa, Jane (Margot Robie), indo atrás do marido onde quer que seja; o patriotismo e procura por redenção da parte do personagem de Samuel L. Jackson. Com amor, ódio, vingança... o filme é uma avalanche de sentimentos, que funcionam muito bem em cada ato do filme.

A atriz Margot Robbie demonstra mais uma vez sua versatilidade em atuar, vivendo uma personagem totalmente diferente de todas que já vivera nas telonas, e ela é a principal responsável pela química que há entre Jane e Tarzan, sendo arrepiante em algumas das cenas. Skarsgard também faz um ótimo trabalho como Tarzan, e os créditos ao ator são necessários.

Temos ainda a presença de Chistoph Waltz, um ator conhecido por seu papel no filme Bastardos Inglórios, onde viveu o Coronel Hans Landa, tendo um ótimo desempenho com uma atuação brilhante. Porém, desde seu papel no citado filme, o ator parece ser o mesmo personagem em outros longas que trabalhara, sendo isso evidenciado mais uma vez em seu mais novo trabalho. Realmente os personagens se parecem muito.

O diretor David Yates (conhecido por seus trabalhos na saga Harry Potter, e diretor do próximo longa do bruxo, Animais Fantásticos e Onde Habitam) consegue fazer algo diferente com uma história infantil, tornando-a mais interessante para quem gosta de uma abordagem mais adulta e envolta a um enredo surpreendente, inimaginável de ser atribuído a esse personagem.

A Lenda da Tarzan é um filme despretensioso, que, sem muito alarde, conseguiu trazer uma visão mais interessante de um personagem que fez parte da infância de muita gente, e seu desempenho é bom no que se propõe a fazer, trazer entretenimento com cenas de ação fantásticas, algumas muito emocionantes, e dando, ainda por cima, uma cara nova para o rei das selvas.

Nota do avaliador:

Esquadrão Suicida - Crítica


Finalmente temos os Piores Heróis da História em cartaz nas telonas mundiais! Trazendo uma nova dinâmica para o Universo Estendido DC, Esquadrão Suicida é um filme diferente de todos os filmes baseados em HQs lançados neste ano. Ainda não viram o longa? Não se preocupem, porque não traremos spoilers em nossa crítica, mas também não deixem de ir ao cinema para tirar suas próprias conclusões!

Parece que alguma praga ronda os filmes da DC neste ano quando olhamos para as críticas. Em Março, Batman V Superman: A Origem da Justiça teve uma recepção muito aquém do que era esperado, sendo até mesmo comparado com filmes como Demolidor (2003) e O Homem de Aço (2013), grandes exemplos de fracassos de filmes de quadrinhos. E, é claro, se o filme que definiu este novo universo cinematográfico teve uma pobre recepção, o longa composto por alguns dos maiores vilões do Batman e do Flash, por exemplo, não teve muito mais sorte, sendo logo atacado por grandes sites. Mas será que o filme realmente mereceu todas as reclamações de "especialistas" no assunto?

Desde que foi anunciado durante a Comic Con de 2015, criou-se muita expectativa para o que seria do filme em seu lançamento. Contando com um elenco recheado de astros, como Will Smith, Jared Leto e Margot Robbie, muitos duvidaram de que seria capaz que o resultado final desagradasse os fãs, sendo que o trailer exibido na ocasião chegou a ser premiado. Mas o que se viu depois foi uma desesperada busca por identidade, vendo que as coisas com A Origem da Justiça não saíram bem como planejado, levando à mudanças de última hora no filme. Ao invés de assumir o tom mais sério e até mesmo sombrio trazido no primeiro trailer, as campanhas de marketing transformaram o filme em algo excessivamente colorido e alegre, e por mais que isso tenha realmente vendido o filme para muitos, logo começaram as comparações com títulos da rival Marvel e sua fórmula bem-humorada em seus filmes. Falando em trailers, há mais diferenças entre o produto final e o que foi mostrado antes de sua estreia. Essencialmente, o Coringa apresentado nos trailers era mais frio e presente do que foi no próprio filme, e isso em muito desagradou, primeiramente por ter elevado demais as expectativas quanto ao personagem, e depois, não pudemos ver efetivamente o desempenho de Jared Leto no papel. Falando em palhaços...

Um dos pontos principais de Esquadrão Suicida é o relacionamento entre o Coringa e a Arlequina, sendo que a última pode ser apontada como um dos pontos mais altos do filme. Mesmo que distante ao longo do filme, o Coringa é frequentemente lembrado por sua amada nos mais diversos momentos, e como se esperava, ele afeta diretamente a história do filme em determinado momento, mas acaba por ser uma mudança bem superficial, já que tudo toma seu rumo em alguns minutos. A história dos dois é muito bem contada, retomando às origens da própria Arlequina, mas muito se vê de um, e pouco de outro, o que acaba confundindo os espectadores que pouco conhecem os vilões do filme. Infelizmente, este problema também ocorre com o resto da Força Tarefa X, sendo que personagens como o Capitão Bumerangue e o Crocodilo sirvam apenas como alívio cômico. Além disso, Katana, que aparecia como uma das personagens principais, chega literalmente atrasada no filme, mas isso não afeta a personagem, já que mesmo pouco explorada, tem imensa profundidade em sua origem, se tornando uma das "menos malvadas" personagens do vilanesco esquadrão. Ela não é a única a criar carisma com o público...

O Pistoleiro, clássico inimigo do Batman, interpretado aqui pelo inigualável Will Smith. O homem que não erra um tiro sequer também tem um coração, e suas razões de viver se encontram em sua filha, o que torna seu arco uma espécie de busca por redenção, e isso coloca o personagem logo de cara como o protagonista do filme. E como um bom protagonista, sabe muito bem como conduzir o filme, independente do tom das cenas! É ele o único dos vilões a enfrentar aquela que é a responsável pela criação da Força Tarefa X, e mesmo que curtos, os confrontos entre o Pistoleiro e Amanda Waller valem cada segundo, sendo que a segunda teve uma interpretação impecável de Viola Davis, literalmente encarnando a personagem! Aliás, todos os atores apresentam atuações sensacionais, e chega a ser difícil escolher apenas um destaque entre eles. É claro, com um foco maior em alguns personagens (Pistoleiro, Waller e Arlequina), fica melhor evidenciada a participação daqueles responsáveis pelos personagens, mas menções honrosas devem ser dadas a Jay Hernandez e Joel Kinnaman, Diablo e Rick Flag, respectivamente, excepcionais em seus papéis. Mesmo o próprio Jared Leto merece seus créditos, apesar de pouco aparecer, e mesmo em poucos minutos, seu potencial para interpretar o Coringa é nítido, mas não vimos o suficiente do vilão. As únicas exceções são o Amarra e Magia, que pouco aparecem no filme. Na verdade, Cara Delevingne convence como June Moone, mas não como o alter-ego da personagem, o que seria fundamental...

E aqui temos um grande problema do filme, mas não exclusivo a Esquadrão Suicida, mas sim algo que vemos já faz um bom tempo em filmes de "heróis": a escolha do antagonista. Desde os primeiros trailers, já se suspeitava de que a grande vilã (em meio aos outros) seria a Magia. O que acontece é que temos um vilão superficial, com planos superficiais e até mesmo uma aparição superficial. Para se ter uma ideia, muito mais gente presta atenção na (impecável) trilha sonora do filme do que nos objetivos dos (sim, no plural) antagonistas. Se todos os vilões de filmes querem dominar o mundo, o que muda aqui, em um filme com tantas mudanças? Nada. O preceito de traição de um povo já foi usado em X-Men: Apocalipse há alguns meses atrás, e assim como no filme da Fox, temos um vilão que tem motivos tolos para botar seu plano em prática. Tudo bem, a Magia não decepciona tanto como o Ultron, nem como o Apocalipse de Batman V Superman: A Origem da Justiça, mas deixa muito a desejar. Certamente, uma escolha mais elaborada traria muito mais conteúdo ao filme, mas não muito do que se queixar aqui, porque todos os filmes andam meio desalinhados neste quesito. Mas o que seria dos vilões sem heróis? O filme traz uma excelente (porém curta demais) aparição do Batman, e assim como no caso dos outros atores, Ben Affleck simplesmente parece ter sido feito para seu papel. Quanto ao Flash, sua aparição é rápida demais (já era esperado, não é?), mas também podemos perceber que coisas boas ainda virão de Ezra Miller no papel. E temos na direção um diretor que cada vez mais prova sua capacidade, trazendo à vida um incrível filme que talvez nunca veja a luz do dia por conta de decisões erradas.

David Ayer é quem assina o filme, e sua capacidade como diretor é inquestionável. Mesmo que a Warner tenha entregue um filme que se especula ser totalmente diferente da versão criada pelo diretor, o caminho inicialmente traçado por Ayer foi o que mais chamou a atenção para o filme, e devemos a ele o crédito por ter entregue um filme incrível, mesmo com defeitos graves de enredo. E o que torna o filme algo excelente são os detalhes, desde as músicas que tocam em determinados momentos até as referências à obra de John Ostrander, aquele que escreveu o esquadrão como conhecemos hoje. A proposta de colocar vilões para derrotar um mal ainda pior é genial, e chega a atacar até mesmo os preceitos políticos que regem o Universo Estendido DC. Se a "morte" de Superman serviu para dar um sopro de vida à Liga da Justiça, é certo que vemos em Esquadrão Suicida um novo episódio para as histórias da DC no cinema. Já era hora de se mudarem algumas coisas no gênero de heróis, e é bom ver esta mudança tomando certa forma. Apesar de não ter sido bem aceito pelos críticos, o filme merece sim uma segunda chance! Não deixem as notas baixas te enganarem, em baixo de toda a cor e aparência bonitinha do filme, existe um grande longa-metragem esperando para ser visto! Agora corram para o cinema mais próximo e tirem suas próprias conclusões, depois voltem e nos contem o que acharam deste incrível filme!

Nota do avaliador: